Alimentação na Perimenopausa: Nutrindo Corpo e Alma com a Sabedoria do Ayurveda
- Naradeva Shala
- 28 de jul. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: há 4 dias
Por Sabrina Alves
A perimenopausa é um convite do corpo para uma profunda travessia. Durante esse período, somos confrontadas com uma série de transformações – algumas visíveis, que se manifestam na pele e no cabelo; outras, mais sutis, que se revelam nos ritmos internos. E, no cerne dessas mudanças, está nossa relação com o alimento. De repente, a digestão se altera, os desejos alimentares parecem dançar uma nova melodia, o apetite oscila como as marés, e a energia se manifesta em fluxos e refluxos.
Para o Ayurveda, alimentação (ahara) transcende a mera nutrição física. Ela se torna um elo vivo com o tempo, uma conexão íntima com a Terra que nos nutre, uma dança com nossas emoções e, sobretudo, um profundo gesto de vínculo consigo mesma. Comer, nessa perspectiva, é um ato de presença, um ritual sagrado de autoconexão, que na perimenopausa pode se revelar como um dos mais potentes caminhos de acolhimento.

Por Que Adaptar a Alimentação Neste Ciclo Vital?
A perimenopausa é um portal de transição que nos insere, gradualmente, na regência do Vāta doṣa – o princípio da leveza, da secura e do frio. Essa ascensão natural de Vāta impacta diretamente nosso agni, o sagrado fogo digestivo que transforma o alimento em vida.
Quando o agni oscila sob a influência de Vāta, o corpo começa a sinalizar:
A digestão pode se tornar mais lenta, caprichosa e irregular, como um rio que perde sua fluidez.
Inchaços, gases e constipação podem surgir, indicando um trânsito que perdeu a leveza.
A fome aparece em horários inesperados, sem um padrão lógico, desafiando nossas rotinas.
O desejo por alimentos doces ou crocantes pode se intensificar, buscando um contraponto à secura e à instabilidade de Vāta.
Uma sensação de "peso" pode persistir, mesmo comendo pouco, como se o corpo lutasse para processar.
O Ayurveda, com sua sabedoria milenar, nos orienta: para nutrir Vāta e fortalecer o agni nesse período, precisamos convidar para o prato alimentos que tragam calor, umidade, suavidade e regularidade. São essas qualidades que harmonizam o vento e enraízam o corpo.
Princípios Gerais Para Comer Bem na Perimenopausa: Uma Dança de Opostos
A arte da nutrição ayurvédica reside no equilíbrio, e para Vāta, a resposta está em oferecer o seu oposto:
Abrace o Quente e o Úmido: Dê preferência a sopas aconchegantes, ensopados nutritivos, legumes cozidos no vapor e arroz temperado com especiarias. Coma com gratidão, evitando o excesso de alimentos crus e frios, que podem agravar a frieza de Vāta.
Convide Boas Gorduras Naturais: O Ghee, o azeite de oliva extravirgem, o óleo de coco e o óleo de babaçu são elixires para essa fase. Eles lubrificam os tecidos internos, suavizam o trânsito intestinal e nutrem a secura que Vāta pode trazer.
Estabeleça Horários Regulares para Comer: A regularidade é um bálsamo para Vāta. Comer em horários consistentes ajuda a estabilizar o agni e acalmar o sistema nervoso. Alimente-se com consciência, longe de distrações, transformando cada refeição em um momento sagrado.
Desperte o Fogo Digestivo com Especiarias: Gengibre, cúrcuma, cominho, coentro e erva-doce são como pequenos sóis para o seu agni. Elas aquecem, protegem e potencializam a capacidade do corpo de absorver nutrientes, além de acalmar a mente.
Modere os Estimulantes: Café, álcool e açúcar refinado, embora tentadores, podem desorganizar os ritmos naturais do corpo e intensificar ainda mais o desequilíbrio de Vāta, contribuindo para a ansiedade e a instabilidade.
Alimentos Que Acolhem: Uma Galeria de “Abraços Digestivos”
Existem preparos que são verdadeiros abraços para o sistema digestivo na perimenopausa, alimentos que nutrem e acalmam:
Arroz integral ou semi-polido cozido com ghee e uma pitada de especiarias quentes.
Legumes da terra como abóbora, batata-doce e cenoura, sempre cozidos até ficarem macios.
Mingaus cremosos de aveia ou painço, adoçados naturalmente e enriquecidos com especiarias doces como cardamomo e canela.
Caldos ricos e nutritivos, seja de ossos (para quem consome) ou de legumes como cebola, salsão e inhame, que trazem vitalidade e calor.
Chás digestivos e calmantes, como o Tulasi (manjericão sagrado), gengibre suave, erva-doce e camomila.
Receita Simples: Khićarī Reconfortante

O Khićarī é um prato clássico do Ayurveda, um abraço em forma de alimento, perfeito para momentos de transição e para dias em que o corpo clama por um colo.
Ingredientes:
½ xícara de arroz branco ou semi-integral
½ xícara de lentilha vermelha ou feijão mungo
1 colher de sopa de ghee
1 pitada de cúrcuma, cominho em pó e gengibre fresco ralado
1 pitada de sal marinho
Água suficiente para formar uma papa macia
Legumes da estação picados, como abobrinha, abóbora ou chuchu
Modo de preparo:
Em uma panela, refogue delicadamente as especiarias no ghee até liberarem seus aromas.
Adicione o arroz e a lentilha (ou feijão mungo) previamente lavados e os legumes picados.
Cubra com água e cozinhe em fogo baixo até que todos os ingredientes estejam bem macios e o prato tenha uma consistência de papa.
Sirva morno, finalizando com um punhado de coentro fresco picado e um fio de ghee.
Este prato é não só leve e digestivo, mas também profundamente fortalecedor e calmante, um convite ao bem-estar.
Comer Também é Escutar
Na perimenopausa, a relação com a alimentação transcende a rigidez de "seguir uma dieta". É um chamado para ouvir o corpo com novos ouvidos, com uma sensibilidade ampliada. Nem sempre a fome virá no mesmo horário, nem sempre o apetite seguirá uma lógica previsível.
Às vezes, comer é, antes de tudo, acolher o que estamos atravessando. É fazer de cada garfada, de cada gole, um ritual silencioso de reconexão, uma celebração da vida que pulsa e se transforma.
Comer é sadhana, ou seja, meditação ativa. Voltaremos a falar mais sobre a criação de sdhanas para o dia-a-dia.
Fontes de Estudo e Referência:
Lad, Vasant. Ayurveda: A Ciência da Auto-Cura. Editora Ground, 2004.
Tiwari, Maya. Ayurveda: A Life of Balance. Inner Traditions, 1995.
Pole, Sebastian. Ayurvedic Medicine: The Principles of Traditional Practice. Singing Dragon, 2006.
Sabrina Alves é jornalista, escritora, terapeuta ayurvédica com mais de 18 anos de atuação, Doutora e Mestre em Ciência da Religião pela PUC/SP, especializada em gênero e decolonialidade nos textos clássicos do Ayurveda. Oferece cursos, consultorias e atendimentos personalizados voltados à perimenopausa e menopausa.
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A Ética da Reexistência (Parte II): Aqui, o cuidado deixa de ser uma tarefa doméstica e passa a ser um gesto político. Discuto o Dinācāryā (rotina) e o Āhāra (alimentação) como tecnologias de ancoragem. Comer, nesta fase, deve ser um gesto terapêutico de nutrição profunda, não uma contagem de calorias.
Maturidade e Saber (Parte III): Exploro a ideia de envelhecer como um retorno ao centro. É o momento em que a experiência se torna sabedoria real (Jñāna), e o Ayurveda nos oferece o método para que esse processo seja de expansão, não de retração.
O Guia Prático de Autonomia (Parte IV): No capítulo final, entrego as "ferramentas de manejo". São orientações detalhadas sobre oleação (Abhyanga), receitas para nutrir os dhātus (tecidos) e práticas para acalmar o sistema nervoso em momentos de instabilidade.
Como afirmo no prefácio da obra:
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