A Perimenopausa como Sandhyākāla: O Tempo do Crepúsculo e a Potência do Entre-Lugar
- Naradeva Shala
- 2 de mar.
- 4 min de leitura
Por Sabrina Alves
Preciso sempre lembrar a quem lê, aos pacientes e alunos, que essa nomenclatura que atualmente usamos para designar as passagens e transições da vida como adolescência, climatério e perimenopausa/andropausa, não estão descritas nos textos canônicos do Ayurveda. Mas há farta descrição para os momentos transitórios, porque são nesses momentos que mais se usa as ferramentas do Ayurveda. E é a partir desse ponto de vista que eu me uso dessas interpretacoes, para fazer uma aproximação entre os conceitos antigos do Ayurveda com o a nossa percepção das mudanças mediadas pelas nomenclaturas da ciencia da biologia e ciencia médica.
Então, tentando reencantar o Ayurveda na contemporaneidade, busco escrever para quem sente o solo tremer sob os pés, mas ainda não encontrou as palavras para nomear esse sismo interno. Nomear ideias, criações, sentimentos e sensações é importante para produzirmos uma síntese de compreenção.
Frequentemente, a cultura hegemônica e a ciência biomédica, que podem ser reducionista, tentam nos convencer de que a maturidade é um estado de carência, algo como um diagnóstico de "falência orgânica" ou um "declínio estético" que, certamente, exige correção imediata. Contra essa lógica binária de produção e obsolescência, busco fazer um deslocamento epistemológico: a compreensão da perimenopausa como um legítimo e fértil sandhyākāla.
Mas o que seria isso? Na cosmologia védica e ayurvédica, sandhyākāla designa o tempo de transição, o "entre-lugar". Refere-se, portanto, aos momentos em que as polaridades e as fronteiras se dissolvem. Como por exemplo, o amanhecer e o anoitecer, desta forma oferecendo uma oportunidade rara de acesso a uma consciência mais profunda e não-dual. Transportado para o ciclo da vida em que estamos falando, a saída dos ciclos menstruais, esse limiar marca o fim do período Pitta (da produtividade e expansão) e a entrada no período Vāta (da introspecção e síntese). Mas a perimenopausa seria esse lugar "entre-lugar", esse lugar em que as fronteiras da existência estão borradas.

A Reconfiguração, não a Queda
Diferente da menopausa, que é um evento pontual marcado pela última menstruação, a perimenopausa é um processo que pode durar de 5 a 15 anos. É um tempo de instabilidade, onde o fogo metabólico de Agni e Pitta podem manifestar-se em ondas de calor antes que a secura e o frio de Vāta se estabeleçam por completo.
Este aumento do princípio Vāta, quando bem acompanhado e orientado, não deve ser interpretado como patologia, mas como a expressão de um novo arranjo energético. E, sim, sei na pele que não é nada fácil. E dizer que é processual, ou seja, passageiro, não vai aliviar sintomas, mas pode trazer compreensões para lidar de forma prática com os desarranjos até que a nova fase se estabelize.
O corpo, desobrigado da função reprodutiva/ovolutiva, converte seu Prāṇa em força para a capacidade de transcendência. E como isso irá ocorrer? Ah, bom, isso, você irá descobrir como se sentir melhor com isso. Com a redução gradual da densidade e da dispersão sensorial, os sentidos podem ser redirecionados da consciência para o que eu chamo de soberania ontológica. No Ayruveda praticado, essa transcendência pode vir com a vivência das passagens do dia e da noite, das estações, por exemplo. E, não, não é pouco o impacto que isso gera na vida. Sempre vou partir dessa perspectiva, então, tenho muito a dizer sobre como vivenciar a transcedência a partir das passagens do tempo.
O Convite à Escuta Radical
Viver o sandhyākāla exige o que nomeio como uma "disciplina da desobrigação". É o exercício ético de pacificar a energia Vāta não pela força, mas pela concessão de uma licença radical para existir em repouso e não-utilidade, se assim você desejar. E é radical porque atualmente é nadar contra a maré não viver para performar. Então, proponho usar a perimenopausa para deslocar o uso da energia para simplesmente viver sem estar obrigada a ser "sua melhor versão". Mas também poder ser, se assim você genuinamente quiser.
Tenho refletido que ao usar esse portal, o cuidado de si torna-se um ato de resistência as estruturas que colonizam nossos corpos e mentes. Não buscamos restaurar um ideal normativo de juventude, mas sim habitar o corpo-vivido com presença, reconhecendo que envelhecer não é uma espera pela morte, mas uma celebração da permanência e da síntese da essência.
Se você sente que "algo mudou", receba essa instabilidade como uma linguagem a ser escutada. Você não está falhando; você está em fluxo, nos estamos. E no fluxo cadenciado das estações internas, reside a nossa mais profunda liberdade.
Sejamos arca!
Sabrina Alves
Fonte:
ALVES, Sabrina. Perimenopausa e Ayurveda: ensaios e práticas para uma jornada de autonomia, corpos plurais e saberes ancestrais. 1ª ed. São Paulo: Editora Naradeva Prakashana, 2025.

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É hora de habitar sua existência com soberania.


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